domingo, 6 de setembro de 2026

Literatura

Dica de Leitura

Farda Fardão Camisola de Dormir - Jorge Amado 

Era um desejo antigo reler esta obra do mestre baiano, pois, noutros que li (e a sua biografia comprova), as histórias se ambientam na Bahia, e este que apresento é no Rio de Janeiro, à época, capital do país na década de 40, período da Ditadura Vargas e fase em que o governo nacional nutria simpatias pelos países do Eixo envolvidos na Segunda Grande Guerra.

A ficção começa com a vacância de uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras (aliás, em 1961, Amado foi eleito para ela e, certamente, usou todo o seu conhecimento dela para escrever esta trama).

 O poeta Antônio Bruno morre em Paris, vítima de um infarto, justamente no período da ascensão nazista na Europa e o único candidato à vaga é o coronel Agnaldo Sampaio, um militar ligado à truculência do Estado e simpático ao nazifascismo. Tem o apoio interesseiro do desembargador e professor Lisandro Leite.

Prontamente, há uma reação ao nome por parte de uma parcela da Academia, em especial porque a cadeira vazia é de um boêmio, sedutor e, principalmente, de um democrata. Mas quem poderia enfrentar o coronel naquele momento, em que os militares estavam no auge do governo Vargas?

Após muito pensar, o anti-candidato escolhido com chances de reverter o favoritismo de Sampaio é, justamente, outra pessoa da caserna. Quem? O general Waldomiro Moreira, embora tenha uma produção literária pequena e irrelevante, é o anti-candidato escolhido. Até de uma patente mais relevante na carreira do Exército.

A luta pelo convencimento dos votantes começa, oferecendo a Jorge Amado a oportunidade de expor críticas sociais, econômicas e políticas, revelando os interesses escusos dos apoiadores dos candidatos, a veia amorosa e envolvente do falecido poeta, e a vaidade humana que permeia quase todos os personagens envolvidos no processo eletivo da Academia, onde o ponto culminante é a mudança de atitude de Waldomiro, que, antes da eleição, já se achava o ungido, com direito a regalias estranhas até aos mais antigos "imortais".

  Uma sátira não apenas ao cenário da história, mas ao estágio final da ditadura militar iniciada em 1964, que dava sinais de esgotamento no final dos anos 70, início dos 80.

Escrito em 1979, a editora é a Record e possui 239 páginas. O meu exemplar é da primeira edição.

Ótima leitura.


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