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sábado, 15 de agosto de 2026

Literatura

Dica de Leitura

O Ruído das Coisas ao cair - Juan Gabriel Vásquez 

Recém finalizei a leitura desta obra do colombiano, residente na Espanha, Juan Gabriel Vásquez. Um primor, inclusive, elogiada por Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa.

O livro tem como fundo o período de hegemonia de Pablo Escobar, maior traficante de drogas da América, dos anos 70 até o início dos 90, e a fase pós-queda dele.

Começa com o encontro do professor universitário, o advogado Antônio Yammara, e o estranho Ricardo Laverde, nos momentos de folga do primeiro, num bar, onde se joga sinuca.

Aos poucos, ao longo dos dias, Antônio conhece parte da trajetória de Ricardo, um piloto de aeronaves, sem saber que este passara algum tempo cumprindo "cana" por conta de atividades ilegais junto ao tráfico de drogas.

Um dia, ambos andavam descontraidamente pelas ruas de Bogotá, quando motoqueiros alvejaram e mataram Laverde, ferindo gravemente, também, Antônio.

A partir deste acontecimento, já recuperado do atentado, o professor, que é casado com Aura, que espera a primeira filha (Letícia), buscará desvendar os mistérios que a vida pregressa de Ricardo esconde.

Uma outra personagem entra na trama com muita força: é Maya, a filha que o morto teve com Elaine Fritts, uma norte-americana ativista de um grupo chamado Corpo de Paz, que atua em regiões de intensas fragilidades socioeconômicas na Colômbia.

Elaine, que Ricardo sempre chamou de Elena, morre num acidente de avião, e este fato é mais um condimento no desenvolvimento da história.

Com esses quatro personagens centrais (Antônio, Maya, Aura e Ricardo), o autor produz um romance em que vidas comuns são afetadas de forma irreversível pelo ambiente de tráfico de drogas. Contudo, ele (Vásquez) não traz na sua narrativa a violência explícita que filmes e livros costumam apresentar.

Um dos melhores livros que li nos últimos anos.

Escrito em 2011, a editora é a Alfaguara. Possui 247 páginas.




quinta-feira, 30 de julho de 2026

Literatura

Dica de Leitura

Vera - José Falero 

Li há menos de um mês (e assisti à live com o autor) esta obra do gaúcho José Falero e fiquei muito feliz com essa leitura, ao mesmo tempo prazerosa e reflexiva.

Vera é uma das várias personagens femininas que dominam a trama; os homens são coadjuvantes, até bem discretos, todos servindo de "escada" para a história delas. 

O cenário retratado é uma vila no interior da Lomba do Pinheiro (Porto Alegre), onde quatro irmãs, mais a mãe e filhos (leia-se netos dela), se sustentam dividindo espaços exíguos, casas e acomodações. 

São mulheres com ocupações de baixa renda ou "bicos" eventuais e, no caso de uma delas, sem emprego, que dá sustentação "operacional" às demais nos afazeres domésticos, assim como Dona Helena, a matriarca, já aposentada.

Vera trabalha num condomínio de classe média no bairro Menino Deus, onde também estão seguranças do prédio, em especial Marcelo, que sonha em "pegar" a faxineira. Sem dar spoiler, cito que essa intenção trará desdobramentos fortes no final do livro.

Outra relação importante que Falero cria no cotidiano da vila é a luta dos moradores contra a truculência de parte da polícia, o que amplia o fosso entre essa parte da sociedade e as demais que vivem em locais com mais infraestrutura (ruas, luzes, água, segurança, transporte coletivo mais racional).

Não é apenas na relação com a polícia de rua que a face desigual da história se revela; essa facêta também se manifesta no tratamento, seja no acesso a postos de saúde, seja no registro de boletins de ocorrência e nas desconfianças entre aqueles servidores que estão no mesmo patamar social, mas que, em suas atribuições, exercitam a mesma discriminação quando há confronto de versões de um fato.

É uma obra sensível, tocante, que comporta personagens simples, mas de grande empatia, como o menino Davi, o "faz-tudo" Aroldo e outros que causam repulsa, como Péterson, o patrão de Vera ou o cretino que se "esfrega" nas mulheres nos ônibus super lotados. E isto, citando apenas figuras masculinas, periféricas no enredo.

Mas vai além destes citados, a grandeza do xadrez social que Falero oferece.

Uma grande leitura que, para quem gostou, traz uma notícia esplêndida: Vera é a primeira parte de uma trilogia sobre este tema.

Produzido em 2024, possui 304 páginas e a editora é a Todavia.




quinta-feira, 9 de julho de 2026

Literatura

Dica de Leitura

Roberto Carlos (por isso essa voz tamanha) - Jotabê Medeiros 

Custei a ler a biografia de Roberto Carlos, porque o que conferi na mídia dá conta de muito assunto que não me interessa, mas esta eu encarei, porque o autor, Jotabê Medeiros, tem duas obras biográficas excelentes, as de Belchior e Raul Seixas.

O relato começa na ida da família Braga de Mimoso do Sul para um centro maior no Espírito Santo, Cachoeiro do Itapemirim. Lá seguiram Seu Robertino, Dona Laura, grávida de Roberto, e os demais filhos. O futuro rei foi o único nascido em Cachoeiro.

Roberto, por ser o caçula, teve seus privilégios com uma infância feliz, mesmo tendo o trauma do acidente que lhe tomou um pedaço da perna direita. Cedo, ele se envolveu com a música, que fez parte de sua vida "desde sempre", com aulas de piano e violão.

O autor narra a ida para o Rio de Janeiro, mostra as primeiras fãs incondicionais e perenes (de sua terra natal), os amigos da infância, que ele, ao longo da carreira, deu suporte financeiro, a transa inicial com a Bossa Nova, a turma da Tijuca: Erasmo, Tim Maia, Jorge Ben e apoio recebido por meio de Carlos Imperial, a descoberta do rock.

Há, ainda, o período paulistano que criou um dos maiores movimentos musicais do país, a Jovem Guarda, também, a guinada do final dos anos 60, tornando sua música mais romântica, a carreira internacional e, claro, os relacionamentos afetivos, suas esposas, mas, o texto pouco comentou sobre os seus filhos, o que considero "ponto para o escritor". 

Não faltou a descrição de sua forte formação religiosa, a católica, oriunda do lado materno.

O livro também apresenta toda a sua discografia detalhada e fotos das várias fases da vida do capixaba, ícone da cultura brasileira.

A editora é a Todavia, possui 512 páginas e foi lançada em 2021.





sábado, 20 de junho de 2026

Literatura

Dica de Leitura

O Vento que arrasa - Selva Almada 

Uma surpresa muito positiva esta obra da argentina Selva Almada, nascida no interior de seu país, porque ela construiu uma história passada em apenas dois dias numa região árida com apenas quatro personagens: o reverendo Pearson e sua filha adolescente Elena (Leni), o mecânico Gringo Brauer e o filho "adotivo", Tapioca, também adolescente, duas famílias díspares que proporcionam a exposição das diferentes personalidades forjadas em ambientes desiguais.

Pearson e a filha, sem morada fixa, viajam pelo interior para levar a palavra de Deus e, numa incursão, quando almejavam encontrar um outro pastor, viram-se no meio da estrada com o carro quebrado, sem contato com o mundo. Felizmente, uma boa alma os reboca até a oficina mecânica de Brauer, que vive com Tapioca e muitos cachorros, em especial, o Baio.

Esse encontro dos quatro proporciona à autora construir uma trama que envolve muitos questionamentos, como o relacionamento frio de pai e filha, em que a memória da mãe/esposa é evitada por Pearson. Por outro lado, Tapioca e Brauer se dão bem, apesar de parecer uma relação fria, distante, sem um futuro para o menino, a não ser substituir o "pai" nos negócios dele.

Também a visão prática de Brauer, destoando da divina/mística do reverendo, a ambição sadia de Leni e a falta de perspectiva de Tapioca (José Emílio).

Contribui para o peso da ambiência, a aridez da região, a falta da chuva, que torra a terra e a deixa mais empobrecida no Chaco argentino.

São vidas jovens e adultas que possuem um ponto em comum: as marcas duras de suas experiências, especialmente o elo familiar rompido.

Os poucos flashbacks da narrativa dão indícios do que as duplas vivenciaram até chegar ao relacionamento contido de pontos frágeis que a leitura permite concluir.

Um grande livro.

Lançado em 2012. Possui 112 páginas. A minha edição é da Cosac & Naify.



domingo, 7 de junho de 2026

Literatura

Dica de Leitura

Lendo no Escuro - Seamus Deane 

Há tempos que eu buscava uma leitura sobre a questão da Irlanda do Norte, o movimento separatista, como é o cotidiano do povo que luta há várias gerações em busca de uma definição para este conflito, e encontrei a do escritor nascido em Derry, cuja principal obra é esta que posto.

A trama ocorre entre as décadas de 40 e 50 do século passado e é contada por um personagem desde a sua infância até a fase adulta, percorrendo cerca de 3 décadas.

No texto aparecem dramas familiares, às vezes, bem pessoais, outros que apresentam a questão separatista, em que se sobressai a história de um tio seu (do narrador), que morreu executado por uma suposta traição, que envolveu a delação de irlandeses para os ingleses. É uma versão que atravessa anos até a sua revelação definitiva, mostrando o quanto o fanatismo, a conveniência e a intolerância podem moldar uma sociedade, mesmo ao custo de culpas e arrependimentos.

A presença de narrativas sobre as lendas celtas da região de Donegal e Forte do Sol é outro elemento que prende a atenção do leitor.

Lendo no Escuro é o livro de estreia de Seamus, produzido em 1996. O meu exemplar é da Editora Record e possui 236 páginas.

Muito bom.


domingo, 17 de maio de 2026

Literatura

Dica de Leitura

Coxilhas - Darcy Azambuja 

O gaúcho Darcy Azambuja (1903-1970) foi membro da Ordem dos Advogados do Brasil, Instituto Histórico e Geográfico e Academia Brasileira de Letras. Uma sumidade.

Quem fizer buscas sobre as suas obras logo vai encontrar as que tratam do Estado, em especial a Teoria Geral, mas, para mim, o lado do escritor de temas regionais é o que mais me desperta. Ele é parceiro de Simões Lopes Neto, Augusto Meyer, Ramiro Barcelos e outros.

Seus clássicos, como "No Galpão" e "Coxilhas", trazem contos de alta qualidade e uma riqueza de termos que necessitam de glossário, o qual está no final de cada um desses livros.

São 14 contos, onde os que mais gostei foram: Arma de Estimação, Sinal de Chuva, Boi Carreteiro, Negrinho do Pastoreio e Fidêncio Quixote.

Este, Coxilhas, é da antiga Livraria do Globo, possui 200 páginas, lançado em 1956, portanto, há setenta anos. 

Clássico!







quarta-feira, 29 de abril de 2026

Literatura

Dica de Leitura

O Beijo da Mulher Aranha - Manuel Puig

Fechando abril, que dediquei ao país irmão, escolhi esta obra que está completando 50 anos e é muito conhecida pelo filme que ela inspirou (direção do argentino Hector Babenco), estrelado por Raul Júlia, Sônia Braga e William Hurt.

Na cadeia, em Buenos Aires, na metade dos anos 70, Valentin e Molina, o primeiro, um contestador da política argentina que vive uma ditadura militar, o outro, um homossexual, cumprindo pena por "corromper menores". O passatempo deles é falar sobre filmes, nos quais Molina narra vários para Valentin, detalhadamente, em especial, Cat People, no Brasil, O Sangue da Pantera.

Com o passar do tempo, o desdém de Valentin vai se transformando em respeito e afeição por Molina, que acaba libertado, mas vigiado, porque a repressão entende que ele poderá ser uma fonte de informações sobre os companheiros de Valentin.

O fim trágico deixa claro que se trata de uma obra política e social, entre críticas à ditadura vigente e à opressão sexual daqueles tempos.

Lançado em 1976, possui 248 páginas; a editora é a Todavia.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Literatura

Dica de Leitura

El Matadero - Esteban Echeverría

O Matadouro (em português), escrito em 1838 e publicado somente mais de três décadas depois, é considerado o primeiro conto produzido na América.

Em poucas páginas, menos de 40, Echeverría apresenta o conflito entre a civilização e a barbárie, isto é, entre os grupos federalistas e unitaristas, os selvagens e os cultos, os de Juan Manoel Rosas versus a oposição elitista e intelectual.

A violência no texto não é explícita, mas aparece em quase todas as páginas no ofício de abater o gado, na extrema pobreza manipulada e no radicalismo dos federalistas.

Apenas no final, com o aprisionamento de um solitário jovem unitarista e a ação de Matasiete, um açougueiro, carrasco e esfolador de reses contra este inimigo, as sevícias são apresentadas de forma mais crua, escancarando o motivo que permeia o conto, que é a barbárie dos seguidores de Rosas.

Esta obra é uma das mais estudadas e pesquisadas no mundo literário e é fácil de encontrar na rede mundial.

Um dos maiores clássicos da América do Sul.

Publicado em 1871, possui 32 páginas. A sua primeira edição ocorreu pela Revista del Río de La Plata.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Literatura

Dica de Leitura

Born to Run - Bruce Springsteen 

Muito boa biografia de Bruce Springsteen, em que a principal característica é a sinceridade, marca que fica evidenciada nas linhas em que ele mostrou ser o controlador de sua carreira e, em especial, da banda que mais o acompanhou, a E Street Band. O apelido "Boss" não foi à toa. 

Ele credita a longevidade de sua equipe, justamente, às decisões finais personalíssimas que tomou. 

Isso não tirou dele o companheirismo e a preocupação com cada membro do grupo. Há várias passagens nas diversas etapas de sua vida que atestam a sua solidariedade.

Como uma boa biografia, Bruce passeia de forma mais resumida pela sua infância, com referências aos avós (paterno e materno), à admiração pela mãe, tias e um distanciamento afetivo do pai, algo que soube resgatar na sua fase de pop star, situação que não é exclusividade dele.

Depois, ele deixa espaço para a sua formação musical, contando sobre suas várias bandas e suas peripécias, com destaque para as vividas na pequena Freehold, cidade onde passou a infância, ele que é de Long Branch, New Jersey.

A preocupação social está presente sempre, ele que é "produto" da classe operária americana.

O livro tem muitas qualidades, como a naturalidade com que abrangeu passagens ruins e, evidentemente, as boas, além de dedicar páginas para a construção de cada álbum que lançou.

Também se refere com carinho a todos os membros da sua banda, a qual inclui Patti Scialfa, sua companheira de muitas décadas e os filhos que optaram por caminhos diferentes do seu.

Lançado em 2016, possui 572 páginas; a editora é Simon & Schuster.


quarta-feira, 4 de março de 2026

Literatura

Dica de Leitura

Sequestros na Noite - Andrea Camilleri 

O siciliano Andrea Camilleri nasceu em 1925, vindo a falecer em 2019. Escreveu mais de 40 obras, tendo a maioria como personagem principal o investigador, Comissário Salvo Montalbano.

Este livro que posto é o vigésimo terceiro de sua "saga" e mostra Montalbano, maduro, triste e solitário, que, diante de um caso atípico, se vê provocado novamente, embora as dúvidas que ele próprio coloque no sucesso da empreitada.

Trata-se de sequestros de mulheres, sem mortes, mas com características muito semelhantes. Além disso, Montalbano é desafiado a descobrir o que estes fatos têm com relação ao incêndio que se verifica na pequena localização chamada Vigáta (vale lembrar que a história ocorre na Sicília, Itália), neste século.

As mulheres sequestradas têm a mesma faixa etária e trabalham em instituições financeiras da região, e o incêndio, sua execução, mostra métodos usados pela máfia.

As pistas que segue, auxiliado pela sua equipe, mostram-se inconclusivas e suscitam mais incertezas em sua mente. Ele está ficando velho para o seu ofício?

Lançado em 2015, possui 231 páginas, a editora é a L&PM.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Literatura

Dica de Leitura

Stoner - John Williams 

Aqui está uma obra-prima que ficou muito tempo relegada ao esquecimento. Por quê?

Porque ela trata da narrativa de uma vida absolutamente comum aos olhos dos leitores. William Stoner não tem façanhas, nem momentos demasiadamente marcantes, para o bem ou para o mal.

É uma trajetória descrita de forma linear pelo autor. Começa com a vida simples de Bill (Stoner), junto aos pais agricultores extremamente humildes no estado de Missouri, que a muito custo conseguem enviar seu filho para uma universidade estadual, isso, no ano de 1910, onde ele cursará Agronomia e, após, retornará para auxiliar sua família.

Ocorre que, ao tomar contato com a obra de William Shakespeare, Stoner dá uma guinada nos estudos e muda o curso, abandonando a ideia inicial. 

Ele conclui, avisa tardiamente os pais e segue avançando na vertente que escolheu. Torna-se professor universitário, especialista em Teoria da Literatura Medieval.

Casa com Edith, tem uma filha, Grace, numa relação fria, distante com a esposa e, embora afetiva na infância, aos poucos, também sente a perda do convívio mais intenso com Grace.

Após anos lecionando, sem a ambição de ascender na carreira, Stoner vê seu destino ser desafiado por colegas que miram justamente os melhores postos e não contam com ele para apoiá-los.

A exceção nesta vida sem surpresas e grandes saltos é a presença de Katherine, uma aluna que, por um certo tempo, irá mexer com a ordem do seu dia a dia.

É um texto cru, sem firulas, mas que pega o leitor pela sinceridade, pela ética e correção com que Stoner leva a vida. Uma vida comum.

Lançado em 1965, é da Editora Arte & Letra e possui 299 páginas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Literatura

Dica de Leitura

O Deserto dos Tártaros - Dino Buzzati 

Recém-finalizei a leitura deste clássico da literatura mundial, que trata da ida do tenente Giovanni Drogo para o Forte Bastiani ao norte da Itália, próximo da fronteira com um reino composto por tártaros.

Drogo abandona a vida boa e tranquila na cidade, por  pensar em quebrar a monotonia da Escola Militar. Cavalga só e esperançoso, onde poderá encarar batalhas e dar um sentido mais nobre à sua carreira.

Antes de chegar, ele começa a conhecer a monótona realidade do seu futuro ambiente de trabalho e já se decepciona ao ponto de descobrir que pode pedir remoção de imediato, fato que lhe passa pela cabeça. Porém, é desencorajado pelo seu superior imediato, que o convence a ficar pelo menos quatro meses, assim, não correndo o risco de manchar a sua carreira.

Drogo aceita, mas, após vencer este período, mesmo recebendo autorização para voltar à cidade, ele desiste no derradeiro instante, permanecendo no Forte.

Nesse momento, o leitor desconfia que o vínculo daqueles soldados com o seu local de trabalho é algo intenso que os mantém por anos a fio ali, sempre imaginando os tempos de encarar batalhas contra os invasores, o que dará sentido à vida de cada um deles.

O livro, evidente, não é sobre o dia-a-dia, a rotina militar, mas trata do processo de adiamento das decisões que afetam fortemente cada ser humano, por isso, a sua mensagem atual.

Deixo um link com excelente resenha do escritor e crítico Antônio Cândido, vide O Deserto dos Tártaros.

O prefácio da minha edição é do grande cineasta brasileiro, Ugo Giorgetti.

A Editora é a Nova Fronteira, possui 171 páginas.

 Dino Buzzati, que completaria 120 anos neste 2026, lançou a primeira edição em 1940.



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Literatura

Dica de Leitura

A Cabeça de Alvise - Lina Wertmüller 

Comprei na Feira do Livro da minha cidade o exemplar usado deste primeiro (único???) livro da renomada diretora de cinema, Lina Wertmüller, dos clássicos Pasqualino Sete Belezas, Mimi, o Metalúrgico e Filme de Amor e de Anarquia, falecida em 2021. E que aquisição!

O romance bem-humorado mostra a relação entre dois jovens judeus que se encontram em Veneza no início da Segunda Grande Guerra. São eles, o tosco, feio e "azarado", Sammy, e o belo, inteligente, altruísta e modelo de sucesso, Alvise.

Eles atravessam várias partes da Europa e norte da África, ambos sendo protagonistas de muitos acontecimentos históricos do período e Sammy, invejoso, tem em mente apenas a destruição, a morte do fantástico, infalível, culto e generoso Alvise.

Todas as tentativas de Sammy frustram, enquanto o belo Alvise sai sempre fortalecido com a passagem dos anos e pelas várias fases da vida de ambos, incluindo a ida a Nova York, onde, após anos, voltam a se encontrar. Tornam-se figuras exponenciais da literatura, culminando na conquista do Prêmio Nobel de Literatura por Alvise.

Mesmo com o êxito de grande escritor de romances policiais, Sammy, assim como a bíblica Salomé e o seu desejo de ter a cabeça de João Batista numa bandeja, busca fazer o mesmo com Alvise.

Além da qualidade do texto, é imperioso destacar a tradução de Élia Edel, que traz para o português expressões bem brasileiras, que dão o toque correto ao romance de Lina.

A primeira edição é de 1981, Editora Record, possui 199 páginas.

Uma delícia de leitura.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Literatura

Dica de Leitura

Um Defeito de Cor - Ana Maria Gonçalves 

Estou finalizando uma obra essencial para a historiografia de nosso país. É um livro intenso e denso em suas quase 1.300 páginas no e-book, demonstrando responsabilidade na produção no que tange à pesquisa profunda, ainda que seja classificado como romance. 

A história acompanha a trajetória de Kehinde/Luísa Mahín (seu nome de batismo na cultura branca) ou Luísa Andrade da Silva (adotado em/na África), desde a tragédia familiar que matou sua mãe e irmão, ainda em solo africano (Daomé), seu aprisionamento, a viagem como escrava e a chegada nesta condição à Bahia no século XIX.

A narrativa se dá na primeira pessoa, em boa parte, para um de seus filhos, Luiz (que eu não detalho mais para não estragar a surpresa), que ficou muito tempo afastado de sua convivência.

Como professor e historiador, muitas passagens são do meu conhecimento, mas, mesmo assim, o viés apresentado pela autora me deu uma contribuição essencial para a compreensão do que hoje eu vejo como lacunas no passado conhecido do Brasil.

Por meio de Kehinde, de sua narração, a cultura africana se desvela por meio dos variados grupos étnicos que aqui desembarcaram e deram uma contribuição inestimável e imprescindível para a cara da nação brasileira.

Seja por meio da culinária, da religiosidade, dos dialetos, dos costumes e, principalmente, pela irresignação com a sujeição forçada da condição de escravo, Kehinde, sua família construída ao longo das numerosas páginas ou pela inabalável relação com seus mortos, tudo isso vai tecendo um roteiro emocionante, em que, além de anônimos, saltam nomes como D. Pedro I e seu filho, Bento Gonçalves, Dr. Sabino, Tiradentes, os revoltosos Malês que agitaram o solo baiano.

Embora decisiva a sua importância, o texto fica mais lento na segunda metade da história, quando a principal personagem deixa o Brasil e retorna ao continente africano.

De qualquer forma, renovo o sentimento de quem venceu o extenso relato contado pela autora.

Produzido em 2006, como informei, li na forma digital, que contém 1.285 páginas. A Editora é a Record.

Já nasceu clássico.



terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Literatura

Dica de Leitura

O Caso do Contrabando do Taim - Antônio Hohlfeldt 

A Editora FTD, cujas iniciais são de Frère Théophane Durand, religioso marista que incentivou a produção de livros didáticos nas escolas, tem sua fundação em 1902.

Entre os anos 90 e 2000, lançou a série infanto-juvenil Que mistério é esse? com autores renomados como José Clemente Pozzenato, Liliane Iacocca, Luiz Galdino, Stella Carr, entre outros.

Dela, eu escolhi O Caso do Contrabando do Taim do gaúcho Antônio Hohlfeldt, cuja história se passa no sagrado espaço da reserva ecológica ao sul do Rio Grande, que inicia quando, numa noite de tempestade com raios e trovões, dois homens (Rogério e Bugre) num monomotor se veem obrigados a fazer um pouso de emergência, justamente na estrada que corta aquela paisagem magnífica, que conduz até o Uruguai. São contrabandistas de joias.

Sem outro recurso, abandonam o produto ilegal, jogando-o num pacote à natureza (um banhado), sem esquecer de marcá-lo bem para o resgate, assim que o tempo ajudar.

Na capital, o inspetor Teodoro recebe a missão de descobrir o roubo e prender os responsáveis. Ele receberá ajuda acidental de um professor, Leôncio e sua equipe de pesquisadores, mais a de Ulimar, o administrador da Estação Ecológica, que trocara a vida urbana e agitada pela serena e pacífica daquela região.

Será uma luta árdua, porque os contrabandistas encontrarão apoio em alguns moradores do local, pois, ao contrário de Ulimar, se estabeleceram lá para obter as vantagens que uma fronteira proporciona para o tráfico ilegal do comércio.

Lançado em 1993, como escrevi, é da Editora FTD e possui 175 páginas.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Literatura

Dica de Leitura

Os Estandartes de Átila - Sílvio Fiorani 

Desconhecia o autor e sua obra. Comprei mais pelo fato de ser indicado pelo Pasquim, algo que nunca falhou para mim. Todos da Codecri (sua editora) promoveram grandes leituras.

O paulista Silvio está com 82 anos, jornalista de formação, no final da década de 70 partiu para a literatura, lançando Sonho de Dom Porfírio, um romance.

Em 1980 escreveu contos que estão reunidos no livro que posto e nele há a confirmação de seu texto ter sido influenciado por Alejo Carpentier, Júlio Cortázar, Jorge Borges e Franz Kafka, entre outros ilustres mestres das letras.

A obra está dividida em cinco partes, conforme a natureza dos contos.

1 - Sete Sinais (sete contos)

2 - Histórias da Cidade (cinco contos)

3 - Circunciclos (seis contos)

4 - Respeitável Público (quatro contos)

5 - Questões de Família (cinco contos)

Em todos eles, o fantástico, o absurdo e o realismo se entrecruzam, dando à pena do autor uma autenticidade quase única na cultura brasileira. 

Fiquei positivamente surpreendido pelas histórias estranhas e peculiares que Silvio Fiorani apresentou há 45 anos.

Como escrevi, o livro é de 1980, Editora Codecri, possui 120 páginas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Literatura

Dica de Leitura

1932 - A Guerra Civil Brasileira - Stanley Hilton 

No cinquentenário do evento, o brasilianista Stanley Hilton produziu a obra que é considerada por muitos como a mais completa sobre o evento chamado de Revolução Constitucionalista de 1932. Essa revolução colocou o estado de São Paulo em guerra com o governo provisório de Getúlio Vargas. 

Por quase três meses, de 9 de julho a 2 de outubro de 1932, São Paulo se manteve em conflito contra a "revolução" de 1930, liderada pelo gaúcho Getúlio Vargas. Isso ocorreu sob a justificativa do retorno do ambiente democrático por meio da realização de novas eleições, conforme declarado pelo primeiro mandatário. No entanto, ele também escondia o anseio do estado do sudeste de retomar o seu protagonismo. Ele, componente essencial da política do café com leite, que conduziu o país a partir de 1894, pós-Deodoro e Floriano, até 1930.

E é sobre este lapso de tempo que o autor faz análise e descrição detalhada de todos os elementos que compuseram o evento. Da origem da crise até o epílogo que resultou em prisões, exílios e até, em alguns casos, reconciliação.

Narra as conspirações, apresenta os principais atores de ambos os lados, isto é, Euclides Figueiredo, Bertoldo Klinger, Pedro de Toledo e Isidoro Lopes versus Getúlio Vargas, Flores da Cunha, Góis Monteiro e Eurico Dutra, entre outros, a ação de diplomatas, inclusive aqueles que residiam em Nova York e também as batalhas em várias frentes, em especial as aéreas, que levaram o inventor do avião, Santos Dumont, a se suicidar após presenciar ataques mortíferos executados pela sua criação.

O ranço dos paulistas com os gaúchos, praticamente, se mantém até os dias de hoje no que se refere à política.

Lançado em 1982, o meu exemplar é da Editora Nova Fronteira e possui 384 páginas.

sábado, 11 de outubro de 2025

Literatura

Dica de Leitura

Os Desafios da Revolução Digital - Ladislau Dowbor 

Nascido na França em plena Segunda Grande Guerra, polonês de origem e brasileiro por adoção, Ladislau Dowbor, 84 anos, segue sendo uma referência intelectual nas áreas da Economia, Sociologia e História de nosso país há mais de seis décadas, isto é, desde a resistência à ditadura militar no Brasil.

Sua produção literária é imensa e a mais recente é esta que posto, em que o autor faz uma análise da fase que o mundo passa por meio da revolução digital. Neste momento, só o conhecimento, seu atingimento à sociedade, é que será possível reduzir a desigualdade social e diminuir a concentração do poder. 

Ele enumera pontos:

- Mudança no eixo de produção, isto é, o conhecimento deve ser compartilhado para todos.

- Aprofundamento das desigualdades, em que a perda da governança restou ampliada pela revolução digital, que concentrou o poder e gerou desequilíbrio ambiental.

- Crise da governança, porque o aprofundamento do conhecimento digital não gerou melhor condição de vida da população.

- Novas formas de apropriação do excedente. Uma delas, a principal, o rentismo, também, o endividamento das pessoas e a apropriação dos direitos de patentes.

— O desafio da reorganização, qual seja, a potencialização do conhecimento compartilhado.

Dowbor afirma que, pela primeira vez na humanidade, a produção de alimentos é superior às necessidades dela; o que ocorre é a injusta distribuição.

A editora é a Elefante, lançado em 2025, possui 254 páginas.

domingo, 21 de setembro de 2025

Literatura

Dica de Leitura

Pequenas Histórias - Gilmar Kettes Niederauer 


Minha quarta obra, desta vez, tratando sobre futebol, mais exatamente, 74 crônicas que envolvem a minha paixão pelo Grêmio Porto-alegrense e alguns momentos marcantes de Copas do Mundo. 

Lançado em junho deste ano, apenas na versão e-book.

Pode ser encontrado na Amazon ou Hotmart, epub e pdf, respectivamente. 

Possui 191 páginas.

Deixo aqui uma delas:

Caszely, o craque que encarou Pinochet

11 de setembro registrou um retrocesso imenso para a humanidade; milhares de pessoas foram executadas, muitas torturadas antes, algumas sem o ato humano de exéquias e sepultamento.

Esta data remonta ao fatídico ano de 1973, terrível para os chilenos, quando o presidente socialista eleito pelo voto popular, o médico Salvador Allende, tornou-se vítima de um golpe à democracia perpetrado pelo traidor general Augusto Pinochet, um de seus ministros, uma marionete inserida no movimento de instabilidade que os EUA realizavam nas Américas. Allende não cedeu e renunciou à vida, resistindo à insidiosa subserviência dos militares ao “Tio Sam”.

Neste período, o clube mais popular do país, o Colo-Colo, nome em homenagem ao líder indígena do povo Mapuche, que lutou contra os colonizadores espanhóis, vivia grande fase, decidindo, inclusive, a Libertadores da América, façanha inédita para o futebol andino, onde mantinha um público médio de 40 mil pessoas em seus jogos. Forneceu a base para a Seleção na Copa do Mundo disputada na Alemanha em 1974.

Deste clube histórico, a grande estrela chamava-se Carlos Caszely, centroavante baixinho, canhoto e vocacionado na arte de marcar gols. Pela sua habilidade, ganhou uma expressão: - O Rei do Metro Quadrado - pela incrível habilidade nos dribles e movimentos em exíguos espaços nos gramados.

Caszely participava ativamente na política de seu país, fruto de sua conscientização do conceito de cidadania, que o levou a ter identificação com a Unidad Popular, coalização que conduziu Allende à eleição, à presidência do Chile.

Caszely apoiou abertamente os candidatos socialistas, pois gozava da condição de maior ídolo do principal esporte chileno e capitão do Selecionado, deferência que atingiu cedo, aos 22 anos.

A disputa para o Chile ir para a Copa do Mundo de 74, exigiu a confirmação da vaga em dois confrontos com a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

A partida de ida ocorreu em Moscou, um empate por 0 a 0. Assim, as chances aumentaram para os sul-americanos. Uma vitória simples carimbaria o passaporte para a Alemanha Ocidental, sede do torneio.

Designado para a partida de volta, o estádio Nacional, após o golpe militar liderado por Pinochet, transformou-se num verdadeiro campo de concentração, um símbolo triste das atrocidades cometidas pelo ditador e seus asseclas. Os soviéticos se negaram a vir, mesmo que isso, significasse não disputar a Copa do Mundo.

O governo chileno, como última tentativa, pegou seus presos, retirou-os do estádio, levou-os para a cidade abandonada de Salitrera, de Chacabuco, porém, evidentemente, a representação europeia não veio, aí, aconteceu um dos eventos mais patéticos da história das Copas. O Chile entrou em campo no estádio Nacional, sem adversário, o árbitro apitou e os jogadores saíram tocando a bola até o arco vazio e Francisco “Chamaco” Valdés marcou o gol, garantindo a vaga. “O gol mais triste do Chile”.

O Palácio La Moneda, interditado, pois havia sido bombardeado, então, Pinochet, na sede provisória do governo, recepcionou a delegação para os cumprimentos no embarque para a Alemanha.

Quando o ditador estendeu a mão para o capitão Carlos Caszely, este lhe negou o cumprimento, que foi duramente criticado pelo porta-voz do governo: - “Veja como é desagradável esse jogador comunista, que, inclusive, foi capaz de negar a saudação ao Presidente”.

Na Alemanha Ocidental, o Chile não passou da primeira fase e Caszely acabou expulso na partida de estreia, dando munição aos seus críticos.

Enquanto se desenvolvia a competição na Europa, no Chile, Dona Olga Garrido, mãe de Caszely, acabou detida e torturada. O craque só tomou conhecimento disso ao voltar do Mundial. Pinochet tinha se vingado da forma mais cruel possível do gesto do atleta.

Na nova década, com a pressão aumentando pela sociedade chilena e organismos internacionais, mais o distanciamento dos Estados Unidos, a ditadura deu sinais de cansaço, de falta de fôlego, assim, veio o seu esmorecimento.

Em 1988, na tentativa de passar um tom de legitimidade a seu governo, Pinochet convocou um plebiscito para 5 de outubro. Caberia ao povo decidir pela continuidade ou não do regime liderado por ele.

No mês de setembro daquele ano, a televisão exibiu propagandas entre Sim e Não pela permanência ou fim da ditadura. Caszely, convidado a participar da campanha, sugeriu que outra pessoa de sua família fosse se manifestar, pois ela experimentara, na prática, os horrores físico e psicológico das ações dos golpistas.

Em 20 de setembro, Olga Garrido contou em detalhes os momentos macabros que passou diante dos militares. Na sequência, junto dela, Caszely apareceu diante das câmeras, conclamou a votarem pelo Não. “Porque sua alegria é minha alegria.” Porque seus sentimentos são meus sentimentos. Porque esta linda senhora é minha mãe”.

A história jamais exposta em público gerou uma enorme comoção nacional que desequilibrou o resultado do plebiscito, com o “No” ganhando o percentual de 60%, fazendo retornar a democracia ao povo chileno no ano seguinte.

Esta é a história de um craque que brilhou dentro e fora das quatro linhas, futebol e cidadania, sempre com muita coragem e de forma destemida.

Caszely tem um lugar definitivo na luta pela busca de uma sociedade mais justa e humana em seu país.

Original em 01/12/24.

Literatura de Apoio (Fontes):

https://ludopedio.org.br

https://brasil.elpais.com


sábado, 6 de setembro de 2025

Literatura

Dica de Leitura

Comédias para se Ler na Escola - Luís Fernando Veríssimo 

E o mestre Veríssimo faleceu no sábado, 30/08. Meu escritor brasileiro favorito, aquele de quem devorei praticamente tudo que produziu ao longo de várias décadas, sempre com muita qualidade, independente do gênero da literatura.

Posto aqui o mais recente que li, aliás, o maior sucesso de vendas de sua carreira. Na verdade, não consigo distinguir suas obras como "a melhor". Em qualquer gênero que ele se aventurou a criar, seus textos são sempre brilhantes, inteligentes e repletos da habitual ironia elegante, a qual poucos, quase nenhum escritor, atingiu em termos de excelência, agradando tanto críticos quanto leitores.

São trinta e cinco narrativas criativas, bem-humoradas, que fazem com que o leitor devore cada uma delas, assim o livro é concluído "numa sentada".

Sua primeira edição data de 2001. A editora é a Objetiva, possui 148 páginas.