Aqui vou tratar quase que exclusivamente de Música,Cinema e Literatura. Sugestões que serão pontuadas pela curiosidade, qualidade e algumas pela indisponibilidade na rede mundial.
Um clássico da literatura gaúcha, "irmão" de Coxilhas, outra obra inigualável deste intelectual nascido em Encruzilhada do Sul.
Darcy foi professor, escritor e jurista, esta última ocupação com uma vasta produção literária.
No Galpão, recebeu o primeiro prêmio de contos da Academia Brasileira de Letras em 1925.
São 16 textos de uma riqueza e sensibilidade que emocionam o leitor. Ainda tem um glossário sobre o vocabulário riograndense.
A escrita de Azambuja descende diretamente da de Simões Lopes Neto, o que, por si só, é uma referência invejável. Para corroborar, a Editora Globo lançou nos anos 20 do século passado a coleção Províncias com onze livros, o primeiro, justamente, de Simões, o segundo de Augusto Meyer e, logo depois, este No Galpão.
O meu exemplar é de 1955, 7ª edição, possui 226 páginas. Lançado em 1925.
Barbara Shelley nasceu Barbara Teresa Kowin em 13 de fevereiro de 1932, Londres, Inglaterra.
Faleceu em 3 de janeiro de 2021 em Londres, Inglaterra. Alguns de seus filmes são: A Sombra do Gato (The Shadow of the Cat, 1961), A Górgona (The Gorgon, 1964) e Drácula, Príncipe das Trevas (Dracula, Prince of Darkness, 1966).
Meio século do lançamento do único álbum da banda paulista que mesclou rock progressivo (no auge no mundo inteiro) e explorações criativas próprias.
O nome induz a uma comparação com o Secos & Molhados, mas ela não é real. São trabalhos diferentes e com consequências igualmente díspares, já que o trio que lançou o seu primeiro disco em 1973, suas vendas explodiram, tornando o grupo cult imediato. Apenas a gravadora de ambos foi a mesma, Continental.
O pão com manteiga está sendo redescoberto décadas depois.
Demorei três décadas para ver esta obra de Joel Schumacher (O Primeiro ano do resto de nossas vidas, Batman Eternamente, entre outros trabalhos), porque não havia me chamado a atenção.
No entanto, após ler a crítica do jornalista Ticiano Osório (ZH), na qual ele mencionava que certas insatisfações do personagem principal Bill Foster (Michael Douglas), ainda estão presentes em nosso tempo, mesmo sob os olhos de um desequilibrado emocional. Aí, eu fui atrás do filme.
Bill está desempregado (função de engenheiro numa indústria de armas) e, no início da trama, vê-se num engarrafamento à entrada de Los Angeles, justamente no dia do aniversário de sua filha pequena, que tem com Beth (a sempre bela Barbara Hershey), de quem está divorciado.
Bill abandona o carro ali mesmo, parado no trânsito, e sai a caminhar, tentando chegar ao seu destino final, a casa de sua ex-esposa, com quem sonha uma reconciliação.
No caminho, a paciência e a sanidade de Bill são desafiadas por encontros inusitados, como o de descendentes de latinos, provavelmente mexicanos ou porto-riquenhos, que tentam extorqui-lo.
O incidente inicial torna-se uma espécie de "guerra", da qual Bill se safa, matando o bando de delinquentes "chicanos" que o perseguia.
A espiral de brutalidade avança, quando se rebela com o preço de uma Coca-cola num pequeno mercado, ali, destrói algumas prateleiras e ameaça o proprietário; depois, uma cena hilária dentro de um 'fasf food", onde não tem o seu pedido de café atendido.
Mais tarde, o contato com um neonazista (o magistral Frederic Forrest), que o confunde com um simpatizante da causa supremacista e o embaraça, culmina com nova morte.
Enfim, a história desenrola-se; mostra a sociedade doentia que envolve o personagem principal, que, por sua vez, é uma síntese das patologias que afetam boa parte dos norte-americanos.
Paralelamente, outro personagem ganha importância: é Prendergast (Robert Duvall), um policial vivendo o seu último dia de ativo e com sérios problemas conjugais decorrentes de traumas psicológicos da cônjuge (Tuesday Weld). É ele que começa a ligar os pontos que identificam a ação predatória de Bill nos diversos eventos de violência. Ele vai contar na empreitada, somente com a detetive Sandra (Rachel Ticotin).
O decorrer da trama amplia o suspense, porque as possibilidades do final são muitas:
Beth, que tem medida protetiva, se safará da insanidade do ex-companheiro?
Prendergast sobreviverá à sua derradeira ação na caçada do assassino?
Bill conseguirá o seu intuito de se aproximar de sua filha no dia de seu aniversário?
Crônica de uma Fuga - Direção de Israel Adrián Caetano
Uma película argentina pesadíssima, ainda que sem grandes cenas de violência física. No entanto, a psicológica esteve presente em quase toda a narrativa. Que coisa! Como o ser humano desce ao ponto de perpetrar humilhações e torpeza com o outro, muitos deles, sem saber exatamente o porquê de suas ações. Uma alienação completa.
A trama é inspirada em obra literária de Claudio Tamburrini, um dos jovens sequestrados e torturados no final de 1977, que ficou prisioneiro na terrível Mansión Seré, uma casa em Morón, cidade situada na grande Buenos Aires.
Claudio (Rodrigo de la Serna) ao chegar em casa, após atuar como goleiro numa partida de futebol amador, onde sua mãe estava sendo interrogada e sofrendo pressões para revelar as atividades "subversivas" do filho, acaba preso.
Ele descobre que, para ser aliviado das torturas, Tano (Martín Urruty) deu o seu nome aos repressores, mas apenas para possibilitar tempo aos seus companheiros.
Na verdade, Claudio não tem nada a ver com as ações realizadas contra o governo usurpador. Não era ele o proprietário do mimeógrafo (mote para a prisão) que produzia panfletos contra o governo militar.
Em condições sub-humanas, nus, vendados, com alimentação precária, sofrendo torturas físicas e, principalmente, psicológicas, os prisioneiros têm uma certeza: jamais sairão vivos dali, mesmo sem envolvimento com grupos radicais, afinal, eles, agora, inocentes ou não, são provas de tudo o que está ocorrendo de violações à vida na Argentina.
A situação muda quando Guillermo (Nazareno Casero) "cai" e vai ser juntado aos demais prisioneiros. É ele, o "homem do mimeógrafo", e, embora muito enfraquecido fisicamente, vai tentar a fuga.
Para isso, ele contará não apenas com Claudio, mas também com Gallego (Lautaro Delgado) e Vasco (Matías Marmorato).
Produzido em 2006, possui 104 minutos.
Segue o trailer oficial e depoimento de Claudio Tamburrini:
Era um desejo antigo reler esta obra do mestre baiano, pois, noutros que li (e a sua biografia comprova), as histórias se ambientam na Bahia, e este que apresento é no Rio de Janeiro, à época, capital do país na década de 40, período da Ditadura Vargas e fase em que o governo nacional nutria simpatias pelos países do Eixo envolvidos na Segunda Grande Guerra.
A ficção começa com a vacância de uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras (aliás, em 1961, Amado foi eleito para ela e, certamente, usou todo o seu conhecimento dela para escrever esta trama).
O poeta Antônio Bruno morre em Paris, vítima de um infarto, justamente no período da ascensão nazista na Europa e o único candidato à vaga é o coronel Agnaldo Sampaio, um militar ligado à truculência do Estado e simpático ao nazifascismo. Tem o apoio interesseiro do desembargador e professor Lisandro Leite.
Prontamente, há uma reação ao nome por parte de uma parcela da Academia, em especial porque a cadeira vazia é de um boêmio, sedutor e, principalmente, de um democrata. Mas quem poderia enfrentar o coronel naquele momento, em que os militares estavam no auge do governo Vargas?
Após muito pensar, o anti-candidato escolhido com chances de reverter o favoritismo de Sampaio é, justamente, outra pessoa da caserna. Quem? O general Waldomiro Moreira, embora tenha uma produção literária pequena e irrelevante, é o anti-candidato escolhido. Até de uma patente mais relevante na carreira do Exército.
A luta pelo convencimento dos votantes começa, oferecendo a Jorge Amado a oportunidade de expor críticas sociais, econômicas e políticas, revelando os interesses escusos dos apoiadores dos candidatos, a veia amorosa e envolvente do falecido poeta, e a vaidade humana que permeia quase todos os personagens envolvidos no processo eletivo da Academia, onde o ponto culminante é a mudança de atitude de Waldomiro, que, antes da eleição, já se achava o ungido, com direito a regalias estranhas até aos mais antigos "imortais".
Uma sátira não apenas ao cenário da história, mas ao estágio final da ditadura militar iniciada em 1964, que dava sinais de esgotamento no final dos anos 70, início dos 80.
Escrito em 1979, a editora é a Record e possui 239 páginas. O meu exemplar é da primeira edição.
Mariana Santangelo nasceu Mariana Belen Santangelo, no dia 21 de novembro de 1975, em Buenos Aires, Argentina. Alguns de seus filmes são: Nesta Vida Complicada (En la Puta Vida-2001), O Alquimista Impaciente (El Alquimista Impaciente-2002) e Miente (Miente-2009).
Faleceu esta semana Rubén Rada, o mais destacado representante do candombe, o ritmo afro-americano do Uruguai. Possuía 83 anos e uma carreira deslumbrante.
Como homenagem, posto este disco realizado em 1971, em que Rada integrava o grupo Totem (ele nos vocais + Eduardo Useta, guitarra, Mario "Chichito" Cabral, percussão, Roberto Galletti, bateria, Daniel "Lobito" Lagarde, baixo e Enrique Rey, guitarra).
Eustáquio, um dos mais famosos e competentes produtores de álbuns icônicos como "Acabou Chorare", dos Novos Baianos, além de uma trajetória vencedora noutros trabalhos junto a Ronnie Von, Leno e Lílian, Alceu Valença, Djavan, Jair Rodrigues, Originais do Samba, Baiano e os Novos Caetanos (Chico Anysio e Arnaud Rodrigues) e responsável por muitas trilhas sonoras de novelas da Rede Globo pelo selo Som Livre.
Com toda essa capacidade (e influência), ele trouxe para o seu primeiro disco (1980) talentos como Zé Ramalho, Jorge Mautner, Robertinho de Recife, Paulinho Braga, Chico Batera, Manduka, Jamil Joanes e a dupla Robson Jorge e Lincoln Olivetti.
O Banheiro do Papa - Direção de César Charlone e Enrique Férnandez
Uma das melhores películas realizadas em solo uruguaio, numa produção de três países (Uruguai, França e Brasil).
Inspirada em fatos reais que ocorreram no povoado de Melo, próximo à divisa com o Brasil, a história mostra como a pequena localidade lidou com a expectativa da passagem do Papa católico, João Paulo II, algo que efetivamente não estava nos planos do Sumo Pontífice, mas que agitou os uruguaios.
A possível vinda de milhares de fiéis a Melo mexeu com a vida dos moradores no afã de obterem vantagens econômicas, o que determinaria um alívio à combalida rotina que passavam há anos, sobreviventes do instável comércio na fronteira dos dois países.
Dentre as várias ideias surgidas, uma, criada por Beto (César Troncoso), parecia genial, ou seja, a disponibilização de um banheiro, onde os visitantes poderiam usar durante a visita papal.
A cidade se entusiasma e até mesmo as pessoas mais lúcidas são tentadas a acreditar no êxito financeiro que uma rápida passagem do religioso poderia atrair cerca de 80 mil devotos, e muitas se desfazem de tudo ou quase isso para montar barraquinhas ao longo do suposto trajeto que o Papa cumpriria.
Com poucos atores profissionais, a película cumpre bem e se equilibra satisfatoriamente entre o drama e a comédia.
No elenco estão Virgínia Méndez (esposa do protagonista) e Mario Silva como Valvulina.
Uma comédia romântica leve e criativa, recheada de grandes atores e um diretor de sucesso (Bedos).
A história começa com Victor (Daniel Auteuil) e Marianne (Fanny Ardant), um casal com mais de 60 anos, que está se afastando, consequência de um relacionamento frio, em parte, pela amargura do homem. Ele, que é cartunista às antigas, está desempregado e não tem intenção de se inserir no mercado tecnológico, que vai, inevitavelmente, substituir o impresso pelo digital.
Marianne sente o relacionamento ruir e põe Victor para fora da casa e, de certa forma, de sua vida, pois já tem um amante, Pierre (papel de Denys Podalydés).
Ao conhecer Antoine (Guillaume Canet), dono de uma empresa de entretenimento que mescla presente e passado aos interessados, este lhe propõe realizar seu maior sonho, o que ele, Victor, gostaria de reviver.
O desenhista escolhe o ano de 1974, fase em que conheceu Marianne, o grande amor de sua vida, fato que ocorreu num bar chamado La Belle Époque, em Lyon.
Assim, Antoine providencia cenários e atores que viabilizam o desejo de Victor, que, na representação, é o único real, ainda assim, tentando pensar e agir conforme era neste período.
Vale dizer que tudo está como em 74: figurino, músicas, arquitetura, isto é, uma viagem no tempo, sem ser ficção científica.
Entretanto, Victor acaba se apaixonando pela atriz que interpreta a jovem Marianne (Dora Tillier), que, por coincidência, é namorada de seu filho na vida real. Ele não tinha conhecimento da relação dos jovens.
Ao mesmo tempo, nos momentos em que vive o presente, ele conquista uma vaga na equipe de Antoine e começa a se adaptar às novas tecnologias de sua profissão, recuperando a auto-estima.
Resta saber como ele vai lidar com sua nova paixão sem perspectivas (a atriz) e a possibilidade de reatar com Marianne, que vive várias decepções com o novo instante ao lado de seu "affair".
Recém finalizei a leitura desta obra do colombiano, residente na Espanha, Juan Gabriel Vásquez. Um primor, inclusive, elogiada por Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa.
O livro tem como fundo o período de hegemonia de Pablo Escobar, maior traficante de drogas da América, dos anos 70 até o início dos 90, e a fase pós-queda dele.
Começa com o encontro do professor universitário, o advogado Antônio Yammara, e o estranho Ricardo Laverde, nos momentos de folga do primeiro, num bar, onde se joga sinuca.
Aos poucos, ao longo dos dias, Antônio conhece parte da trajetória de Ricardo, um piloto de aeronaves, sem saber que este passara algum tempo cumprindo "cana" por conta de atividades ilegais junto ao tráfico de drogas.
Um dia, ambos andavam descontraidamente pelas ruas de Bogotá, quando motoqueiros alvejaram e mataram Laverde, ferindo gravemente, também, Antônio.
A partir deste acontecimento, já recuperado do atentado, o professor, que é casado com Aura, que espera a primeira filha (Letícia), buscará desvendar os mistérios que a vida pregressa de Ricardo esconde.
Uma outra personagem entra na trama com muita força: é Maya, a filha que o morto teve com Elaine Fritts, uma norte-americana ativista de um grupo chamado Corpo de Paz, que atua em regiões de intensas fragilidades socioeconômicas na Colômbia.
Elaine, que Ricardo sempre chamou de Elena, morre num acidente de avião, e este fato é mais um condimento no desenvolvimento da história.
Com esses quatro personagens centrais (Antônio, Maya, Aura e Ricardo), o autor produz um romance em que vidas comuns são afetadas de forma irreversível pelo ambiente de tráfico de drogas. Contudo, ele (Vásquez) não traz na sua narrativa a violência explícita que filmes e livros costumam apresentar.
Um dos melhores livros que li nos últimos anos.
Escrito em 2011, a editora é a Alfaguara. Possui 247 páginas.
Sara Lezana nasceu Sara Lezana Mínguez, no dia 5 de março de 1948, em Madri, Espanha. É atriz e bailarina. Alguns de seus filmes são: Tiroteio em Red Sands (Gunfight at the Red Sands-1963), A Morte de um Pistoleiro (Joaquín Murrieta-1965) e A Queda dos Moicanos (Uncas, el fin de una Raza-1965).
Um clássico irretocável do grande artista mineiro nascido no Rio de Janeiro.
Neste álbum, o quarto dele, está a música Clube da Esquina, ausente no álbum duplo homônimo (não confundir com a Clube da Esquina 2).
Além dela, há músicas fantásticas como "Para Lennon e McCartney", "Maria Três Filhos", a citada "Clube da Esquina", "Durango Kid", "A Felicidade", entre outras, além de bônus como "Aqui é o país do futebol" e "Tema para Tostão".
Neste trabalho, Milton Nascimento contou com a participação do Som Imaginário (Rodrix, Wagner Tiso, Robertinho Silva, Luiz Alves, Tavito e Fredera), também com Naná Vasconcelos, Lô Borges e... Dorival Caymmi numa faixa.
Excelente série da Netflix sobre o fenomenal tenista espanhol, Rafael Nadal. São quatro episódios, onde o fato mais saliente é a força de vontade, a obstinação do tenista multi campeão do Grand Slam e vencedor de duas Olimpíadas.
Suas lesões ainda em início de carreira prenunciavam um ciclo curto e de pouca visibilidade no tênis. Ele as superou e desafiou tantas outras ao longo de sua longeva trajetória neste esporte.
São momentos de extremas dificuldades pelos tratamentos, atuações com dores quase insuportáveis, cirurgias e algumas derrotas doídas, portanto, a série não indica apenas os momentos felizes nas quadras e fora delas, mas com o apoio da família e uma férrea determinação, Rafael Nadal mostra como se faz um campeão.
Aos 40 anos e com 22 Grand Slams, Nadal ultrapassa qualquer um deste esporte recheado de estrelas.
O filme aborda o tema da aviação civil, focando em um desastre aéreo no qual 300 pessoas pereceram em um voo de Dubai para Paris; trata-se de uma ficção que não deve nada aos fatos reais.
A análise da caixa preta (o mesmo título em francês) caberá ao maior especialista da companhia, Mathieu (Pierre Niney), mas que inicialmente será "escanteado" pela chefia imediata, o que gera um desconforto para ele.
Após o sumiço de Victor Pollock (Olivier Rabourdin), o tal chefe imediato, não resta ao comando geral, na figura de Philipe Renier (André Dussolier), recrutar Pierre, e ele começa as investigações pela caixa-preta e seus ruídos quase inaudíveis com relativo êxito.
A esposa dele, Noémie (Lou de Laâge), e seu melhor amigo, Xavier (Sébastien Pouderoux), também atuam na mesma área em empresas concorrentes que terão um papel importante nos desdobramentos da história, no vai e vem da trama e nas surpresas que fazem o espectador se tornar um expectador, dadas as importantes reviravoltas que o caso apresenta.
É lógico que há várias películas tratando desta mesma temática, porém, essa apresenta um personagem principal falível, vacilante, mas, ao mesmo tempo, que retoma a perspectiva de superação, pois no passado cometeu um erro importante, que quase inviabilizou sua carreira como engenheiro aeronáutico.
Até a chegada ao epílogo, o filme deixa sempre dúvidas quanto às causas do desastre: falha mecânica, atentado terrorista, boicote da concorrência?
Produzido em 2021, com 129 minutos, Caixa Preta foi bem acolhido pelo público e crítica.
Li há menos de um mês (e assisti à live com o autor) esta obra do gaúcho José Falero e fiquei muito feliz com essa leitura, ao mesmo tempo prazerosa e reflexiva.
Vera é uma das várias personagens femininas que dominam a trama; os homens são coadjuvantes, até bem discretos, todos servindo de "escada" para a história delas.
O cenário retratado é uma vila no interior da Lomba do Pinheiro (Porto Alegre), onde quatro irmãs, mais a mãe e filhos (leia-se netos dela), se sustentam dividindo espaços exíguos, casas e acomodações.
São mulheres com ocupações de baixa renda ou "bicos" eventuais e, no caso de uma delas, sem emprego, que dá sustentação "operacional" às demais nos afazeres domésticos, assim como Dona Helena, a matriarca, já aposentada.
Vera trabalha num condomínio de classe média no bairro Menino Deus, onde também estão seguranças do prédio, em especial Marcelo, que sonha em "pegar" a faxineira. Sem dar spoiler, cito que essa intenção trará desdobramentos fortes no final do livro.
Outra relação importante que Falero cria no cotidiano da vila é a luta dos moradores contra a truculência de parte da polícia, o que amplia o fosso entre essa parte da sociedade e as demais que vivem em locais com mais infraestrutura (ruas, luzes, água, segurança, transporte coletivo mais racional).
Não é apenas na relação com a polícia de rua que a face desigual da história se revela; essa facêta também se manifesta no tratamento, seja no acesso a postos de saúde, seja no registro de boletins de ocorrência e nas desconfianças entre aqueles servidores que estão no mesmo patamar social, mas que, em suas atribuições, exercitam a mesma discriminação quando há confronto de versões de um fato.
É uma obra sensível, tocante, que comporta personagens simples, mas de grande empatia, como o menino Davi, o "faz-tudo" Aroldo e outros que causam repulsa, como Péterson, o patrão de Vera ou o cretino que se "esfrega" nas mulheres nos ônibus super lotados. E isto, citando apenas figuras masculinas, periféricas no enredo.
Mas vai além destes citados, a grandeza do xadrez social que Falero oferece.
Uma grande leitura que, para quem gostou, traz uma notícia esplêndida: Vera é a primeira parte de uma trilogia sobre este tema.
Produzido em 2024, possui 304 páginas e a editora é a Todavia.
Lícia Maglietta nasceu em Nápoles, Itália, no dia 16 de novembro de 1954. Alguns de seus filmes são: Morte de um matemático napolitano (Morte di un matematico napoletano-1992), Pão e Tulipas (Pane e Lulipani-2000) e Lua Vermelha (Luna Rossa-2001).